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terça-feira, 11 de setembro de 2012

O PROFESSOR DE TORTURA - José Ribamar Bessa Freire*

Do Diário do Amazonas


(Enviado de Paris) Acabo de ler o último livro que o general francês Paul Aussaresses escreveu: Eu não contei tudo.Últimas revelações a serviço da França (Je n'ai pas tout dit.Ultimes révélations au service de la France, Editions du Rocher, 2008). Depois disso, tentei entrevistá-lo, sem sucesso, através de contato com Jean-Philippe Bertrand, assessor de comunicação da editora. Soube que o general está com 94 anos, quase cego, e que não mora em Paris, reside na Alsácia. Mas não dá entrevistas.

Ele deu uma entrevista polêmica ao Le Monde em novembro de 2000, depois outra, em 2008, à Folha de São Paulo. Tentei arrancar uma agora para o Diário do Amazonas, consciente de que seria difícil. Diante da impossibilidade, só me resta compartilhar com o leitor minhas impressões sobre o livro que li, onde o general conta suas andanças pelo Brasil, suas atividades como adido cultural da França em Brasília de 1973 a 1975, e suas muitas passagens por Manaus, onde foi professor de tortura no Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS).

Logo no primeiro capítulo, Paul Aussaresses revela que sempre foi um babaca, desde que nasceu. Quer dizer, ele não diz que era babaca, é claro, sou eu que estou dizendo pelas coisas que ele narrou. Ele conta, por exemplo, que na sua infância, em Paris, olhava de sua janela os soldados desfilando no Campo de Marte e ficava fascinado:

- Eu dizia a mim mesmo: quando eu crescer, vou ser militar. Minha querida avó, em cuja casa meus pais me deixavam muitas vezes, me olhava e dizia orgulhosa: "Cadê o generalzinho da vovó"? Na família, todo mundo dizia que minhas primeiras palavras foram: "Posição, sentido! Avançar!". Mas eu não amava apenas os desfiles militares e a música marcial. Era eu um predestinado?

Paul Aussaresses cresceu, se tornou militar e atuou no Serviço de Documentação Exterior e de Contra-Espionagem (SDECE). Participou da guerra da Indochina. Ele confessa, na maior cara de pau, que este órgão do governo francês decidiu montar uma rede para o tráfico de ópio:

- "Nós comprávamos ópio no Laos por 14 centavos o grama e revendíamos aos intermediários por 18 francos. Esse tráfico rendeu muito à República Francesa e dessa forma nós pudemos financiar atividades de repressão".

Chefe do Batalhão de Paraquedistas francês, além de combater na Indochina, lutou na Segunda Guerra Mundial e recebeu a medalha de herói. Foi um dos responsáveis pela sistematização da tortura durante a guerra da Argélia, instrutor das forças especiais norteamericanas em Fort Bragg, e se distinguiu nos anos 1970 como professor de tortura no CIGS, em Manaus, criado pelo marechal Castelo Branco no início da ditadura militar, em 1964. Teve alunos brasileiros, chilenos, argentinos, uruguaios e paraguaios, entre outros.

Vale a pena reproduzir aqui alguns trechos do livro. O jornalista Jean-Charles Deniau, autor da entrevista, que deu origem ao livro do general, lhe pergunta:
- Você ia com muita frequência a Manaus?
- Sim, ia todos os meses.
- O que você ia fazer lá? 
- Manobras com os alunos e estagiários do CIGS.
- Mas você não ia para o coração da floresta apenas para realizar manobras...
- Não. Os brasileiros me confiaram outras tarefas. Meu programa consistia em ensinar aos alunos a guerra contra-revolucionária. Para ser bem claro: eu ensinava as técnicas da batalha da Argélia, 
- E em relação à tortura, como é que acontecia?
- A gente ensinava as técnicas, ensinava como se devia fazer.
- O ensino da tortura era, então, apenas teórico? Ou havia aulas práticas?
- Havia aulas práticas. 
- Na realidade, vocês formavam torturadores brasileiros que, por sua vez, exportavam a técnica para outros países da América Latina?
- Sim. Confirma. Exato.

O general francês conta que quando foi adido militar, o general João Figueiredo era chefe do SNI e com ele construiu uma sólida amizade, assim como com o delegado Sérgio Fleury. Narra que quando estava em Manaus foi chamado às pressas à Brasília por Figueiredo, que o levou ao porão de um prédio onde uma mulher presa, de nome Eva, com quem o francês havia tido um caso, estava sendo torturada. Ela morreu sob tortura. Segundo Figueiredo,era uma espiã.

O professor de tortura francês faz uma apologia da violência cometida contra presos indefesos, justificando: "A tortura é eficaz, a maior parte das pessoas não aguenta e fala mesmo. Depois, quase sempre, nós os matávamos. Por acaso isso me trouxe problemas de consciência? Não, essa é que é a verdade: não".

Enfim, o general francês Paul Aussaresses, no seu livro, demonstra que é - usando a linguagem do "p" - um grande fipilhopo daputapa.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Ditadura Militar massacrou indígenas

Do Blog Urubuí

Provavelmente Egydio Schwade é um dos indigenistas vivos que mais podem contribuir com a Comissão Nacional da Verdade para esclarecer crimes praticados pelo Exército brasileiro, a mando do governo militar, contra os indígenas durante a última ditadura civil-militar (1964 – 1984). Atualmente com 76 anos, Egydio foi o primeiro secretário-executivo do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e trabalhou com a alfabetização dos Waimiri-Atroari (ou Kiña, como eles se autodenominam) em 1985, quando passou a morar com a família na aldeia deste povo na floresta
Amazônica. A partir dessa atividade, tomou contato com uma realidade na sua maior parte ainda desconhecida pelos brasileiros e não titubeia ao afirmar que pelo menos 2 mil indígenas dos Waimiri-Atroari de todas as idades estão desaparecidos. “São histórias de violência que precisam ser esclarecidas”, defende o ex-missionário.
Os Waimiri-Atroari constituíam suas aldeias em trajeto semelhante ao escolhido para a obra BR 174, a estrada que liga Manaus à Boa Vista, conhecida também como Manaus–Caracaraí, construída entre 1967 a 1977. Embasada em discurso desenvolvimentista dos estados da Amazonas e Roraima e do governo brasileiro, posteriormente a estrada facilitaria a instalação da hidrelétrica de Balbina e de projetos de mineração. Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, em 21 de janeiro de 1975, o Coronel Arruda, comandante do 6º Batalhão de Engenharia e Construção, responsável pela construção da BR-174, deu o tom da ação: “A estrada é irreversível como é a integração da Amazônia no país. A estrada é importante e terá que ser construída custe o que custar. Não vamos mudar o seu traçado, que seria oneroso para o Batalhão, apenas para pacificarmos primeiro os índios”.
Em 1968, a expedição do Padre Calleri, a pedido da Fundação Nacional do Índio (Funai), constatou que aproximadamente 3 mil pessoas da etnia viviam na região. Quatro anos depois, o número foi confirmado por nova pesquisa da Funai. Em 1982, entretanto, um estudo do antropólogo e pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), Stephen Beines, verificou-se uma redução drástica dessa população, contabilizando apenas 332 Waimiri-Atroari. O que aconteceu com essa população? Egydio tenta responder.
Ele explica que era por meio de desenhos, da língua nativa Kiñayara e depois em português que os remanescentes denunciavam a dizimação de aldeias inteiras com armas de fogo e químicas. Crianças desenhavam aviões sobrevoando as aldeias. Indígenas contavam histórias de um líquido pegajoso e incendiário, provavelmente napalm, atirado contra os nativos. Histórias de tiros, dinamites, granadas também foram relatadas. “São diversas histórias e a mais chocante fala sobre a morte em massa. Uma aldeia estava em festa e nessas ocasiões praticamente todo o povo se movimenta. Tudo indica que foi no final de setembro de 1974, quando de repente, um pouco depois do meio dia, um helicóptero do Exército jogou um pó sobre as pessoas que as deixaram todas mortas. Só uma pessoa não morreu. E foi como se não tivesse acontecido nada no Brasil”, destaca.
Outro fato que chocou bastante o missionário foi a morte do pai de um de seus alunos. “Eles queriam fazer uma visita aos militares, um contato amistoso, para colocar os problemas da aldeia e eles foram recebidos à bala. O pai dele recebeu um tiro que passou pela boca, quebrando os dentes”, afirma. “Muitos dos nossos alunos eram oriundos de cinco aldeias que sumiram. Eles contam que o povo ficou muito revoltado, em consequência disso provavelmente ocorreram dois massacres contra funcionários da Funai”, relembra.
Além de um obstáculo ao desenvolvimento, os Waimiri-Atroari chegaram a ser associados à guerrilha. Um panfleto da Operação Atroaris, anti-guerrilha, escrito em versos, dizia: “Estais cercado, teus momentos estão contados; vê na operação esboçada que o teu fi m está próximo”. O folheto pedia ainda redenção do “irmão” e, como recompensa, garantia que a Operação lhes deixaria com vida.

Como atuou a Funai 

De acordo com o ex-missionário, a missão da Funai era remover obstáculos. “E os obstáculos eram os índios. Depois explicavam para a opinião pública que estavam tentando proteger os indígenas, o que não ocorria”, defende. Segundo ele, a Fundação também auxiliava o governo que buscava manter longe dos Waimiri-Atroari jornalistas, pesquisadores e o movimento popular. A Funai foi procurada pela reportagem para que pudesse falar sobre os crimes cometidos contra os indígenas por suposta omissão ou autoria do Estado, mas até o fechamento desta edição não havia respondido.
Funcionários ligados ao órgão que denunciaram os abusos cometidos contra os Waimiri-Atroari na década de 1970 foram demitidos como são os casos de Milton Lloli e Apoena Meirelles. Este último, em entrevista ao jornal Opinião, veiculado no dia 17 de janeiro de 1975, chegou associar a etnia a indígenas traiçoeiros, mas ponderou: “Mas a estória é outra, e chegamos mesmo a mentir à opinião pública nacional, não contando a verdade dos fatos que levam esses índios a trucidar as expedições pacificadoras... é a estrada que corta a sua reserva, proliferando o ódio e a sede de vingança contra o branco invasor, foram os assassinatos praticados pelos funcionários da Funai durante os dois últimos conflitos”.
E continua: “Hoje em dia vamos em missão de paz, de amizade com os índios, mas na verdade estamos é trabalhando como pontas de lança das grandes empresas e dos grupos econômicos que vão se instalar na área. Para o índio fica difícil acreditar em missão de paz se atrás de você vem um potencial de destruição ecológica”.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Blog do Comitê da Verdade do Amazonas


Segunda tive o prazer de participar de uma das reuniões do Comitê da Verdade do Amazonas, que busca ser uma sucursal da Comissão Nacional da Verdade em nosso estado.

Pesquisando na internet, encontrei o blog do Comitê, e divulgo a vocês:


espero que todos possam estar acompanhando sempre, afinal, um povo que não reconhece seu passado tem um futuro incerto, e mais do que reconhecer é necessário pesquisar e punir os responsáveis pelos crimes ocorridos durante a ditadura militar, para isso precisamos mobilizar toda a sociedade, enfim, é isso.